Em conversa com minha irmã, hoje, ela diz:
- Eu sentia saudade daquele tempo, onde acabava a luz e nada podia ser feito. Daí a gente ficava reunido na sala, conversando. Ali eu me sentia vivendo de verdade.
Seis meses atrás, numa aula de antropologia, meu professor contava:
- No metrô, em Barcelona, tive uma experiência reveladora. Lá, muito diferente daqui, eles possuem uma espécie de cronômetro, onde o tempo que falta para o trem chegar fica exposto. Como numa contagem regressiva extremamente reveladora, entediante.
Confesso ter ficado frustrado com aquilo. Ou melhor, nos primeiros dias achava um barato. Depois de uma semana mais ou menos, esperava sempre para que a traquitana falhasse; aquela torcida pelo touro contra o toureiro, sabe?
Isso porque toda essa tecnologia é muito frustrante. Nos maquiniza. Não nos permite sermos humanos. Lá, eles estavam perdendo a capacidade de compreender, entende? Eles não estavam mais atentos aos sinais, como o barulho do trem ao fundo; a luz do mesmo na curva, vindo lá do final da linha; e o vento, característico da velocidade alcançada pelo trem.
Conversando agora a pouco com o “camaradinha” Freud:
“Através de cada instrumento, o homem recria seus próprios órgãos, motores ou sensoriais, ou amplia os limites de seu funcionamento. A potência motora coloca forças gigantescas à sua disposição, as quais, como os seus músculos, ele pode empregar em qualquer direção: graças aos navios e aviões; por meio dos óculos corrige os defeitos das lentes de seus próprios olhos; na câmera fotográfica, criou um instrumento que retém as impressões visuais fugidas, assim como um disco as auditivas, ambas no fundo um poder de rememoração, ampliando sua memória...
... No interesse de nossa investigação, contudo, não esqueceremos que atualmente o homem não se sente feliz em seu papel semelhante a Deus.”
Parece que na ânsia de viver, o homem não vive, sobrevive. Com a ciência e sua onipotência temos que racionalizar o mundo; pesquisar para desenvolver, desenvolver para produzir, produzir para consumir, consumir para ter, ter para ser. E uma vez sendo, esquecer.
2 comentários:
vou dar uma chance pra esse ponto de mutação mas desde já estou contigo; esse camaradinha freud sabe de algumas coisas né cara? e a aula de antropologia nem falo nada, mudou minha vida. já sua irmã, bom, essa aí é bem relacionada. bom texto, gostei da reflexão final.
Vamo atualizar, vamo?
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