15 maio, 2009

Ponto de Mutação

Em conversa com minha irmã, hoje, ela diz:

- Eu sentia saudade daquele tempo, onde acabava a luz e nada podia ser feito. Daí a gente ficava reunido na sala, conversando. Ali eu me sentia vivendo de verdade.


Seis meses atrás, numa aula de antropologia, meu professor contava:

- No metrô, em Barcelona, tive uma experiência reveladora. Lá, muito diferente daqui, eles possuem uma espécie de cronômetro, onde o tempo que falta para o trem chegar fica exposto. Como numa contagem regressiva extremamente reveladora, entediante.
Confesso ter ficado frustrado com aquilo. Ou melhor, nos primeiros dias achava um barato. Depois de uma semana mais ou menos, esperava sempre para que a traquitana falhasse; aquela torcida pelo touro contra o toureiro, sabe?
Isso porque toda essa tecnologia é muito frustrante. Nos maquiniza. Não nos permite sermos humanos. Lá, eles estavam perdendo a capacidade de compreender, entende? Eles não estavam mais atentos aos sinais, como o barulho do trem ao fundo; a luz do mesmo na curva, vindo lá do final da linha; e o vento, característico da velocidade alcançada pelo trem.


Conversando agora a pouco com o “camaradinha” Freud:

“Através de cada instrumento, o homem recria seus próprios órgãos, motores ou sensoriais, ou amplia os limites de seu funcionamento. A potência motora coloca forças gigantescas à sua disposição, as quais, como os seus músculos, ele pode empregar em qualquer direção: graças aos navios e aviões; por meio dos óculos corrige os defeitos das lentes de seus próprios olhos; na câmera fotográfica, criou um instrumento que retém as impressões visuais fugidas, assim como um disco as auditivas, ambas no fundo um poder de rememoração, ampliando sua memória...
... No interesse de nossa investigação, contudo, não esqueceremos que atualmente o homem não se sente feliz em seu papel semelhante a Deus.”



Parece que na ânsia de viver, o homem não vive, sobrevive. Com a ciência e sua onipotência temos que racionalizar o mundo; pesquisar para desenvolver, desenvolver para produzir, produzir para consumir, consumir para ter, ter para ser. E uma vez sendo, esquecer.

04 maio, 2009

surpresa

Conversa com meu irmão. Ele tá longe de ser um cara raso. Mas é menos preocupado com o subjetivo que eu. Não é melhor, nem pior; apenas tem anseios um pouco distintos. Mas ele me manda a seguinte entrevista, que vale muito a pena. Fenomenal.

Entrevista O Globo

ZIGMUNT BAUMAN

RIO - Professor emérito das universidades de Leeds e de Varsóvia, 83 anos, autor de best-sellers como "O mal-estar da pós-modernidade", "Modernidade líquida" e "Amor líquido", o sociólogo polonês Zigmunt Bauman é um ferrenho analista das consequências sociais do que conhecemos como progresso. Nesta entrevista por email, ele discorreu sobre a correria do nosso tempo com o seu jeito claro, objetivo e muito particular.

O GLOBO: O que mudou na nossa percepção do tempo com o avanço das tecnologias de comunicação? Por que andamos com tanta pressa?

ZIGMUNT BAUMAN: Na sociedade contemporânea, somos treinados desde a infância a viver com pressa. O mundo, como somos induzidos a acreditar, tornou-se um contêiner sem fundo de coisas a serem consumidas e aproveitadas. A arte de viver consiste em esticar o tempo além do limite para encaixar a maior quantidade possível de sensações excitantes no nosso dia-a-dia. Essas sensações vêm e vão. E desaparecem tão rapidamente quanto emergem, seguidas sempre de novas sensações a se perseguir. A pressa - e o vazio - é fruto disso, das oportunidades que não podemos perder. Elas são infinitas se acreditamos nelas.

O GLOBO: Como chegamos a esse ponto de estresse e, talvez, cegueira?

ZIGMUNT BAUMAN: Cegueira? Depende de como você olha para o comportamento atual. Muitas pessoas, especialmente os jovens que nunca viram outras formas de viver, diriam que eles mantêm os olhos e os ouvidos muito abertos, e estão muito mais alertas e vigilantes do que os mais velhos, que viveram épocas menos frenéticas. Eles diriam mais: que estando tão alertas, e rapidamente pegando no ar as possibilidades, eles são os sábios, os que sabem viver a sua época. Esse ritmo é o ritmo do tempo que habitam, um tempo que abortou o que eu chamaria de tempo livre, o tempo não preenchido com o consumo de imagens, sons, gostos e sensações táteis. Somos dependentes dos estímulos externos: as mensagens que chegam no celular, o iPod, as conversas pela internet. A alternativa para o tempo não preenchido com esses estímulos não é mais vista como tempo de reflexão, de auto-questionamento, de conversa consigo mesmo, mas de tédio. Nós somos seres que se escoram no que vem de fora. Perdemos a capacidade de nos auto-estimular. Estar sozinho - a liberdade de gastar o tempo com nossos próprios pensamentos, per$e sonhada por nossos ancestrais - é identificado hoje com solidão, com abandono, com a sensação de não pertencer. No MySpace, no Facebook ou no Twitter, o ser humano enfim conseguiu abolir a solidão, o olho no olho consigo mesmo.

O GLOBO: O que o senhor apontaria como o epicentro da aceleração que tornou o mundo tão rápido e tão raso ao mesmo tempo?

ZIGMUNT BAUMAN: A sociedade pegou a estrada de uma vida orientada somente pelo consumo. O ser humano autossuficiente e satisfeito nas suas necessidades materiais ou espirituais perdeu o jogo para o mercado. Qualquer caminho que satisfaça os desejos e que não esteja ligado a compras e lucros é amaldiçoado. Vivemos o tempo do conecta e desconecta.

O GLOBO: Quando visitamos lugares como o Tibete temos a impressão de que eles vivem outro tempo, que têm um relógio diferente do nosso. Quem está mais próximo do tempo real, os tibetanos ou os nova-iorquinos, por exemplo?

ZIGMUNT BAUMAN:O tempo jorra em todos os lugares. E nós envelhecemos no Tibete ou em Nova York. Mas a experiência da passagem do tempo nós organizamos de maneira diferente, dependendo da sociedade em que estamos inseridos. Na maior parte da história da Humanidade, tínhamos basicamente duas formas de organização: o tempo cíclico, que se repete dia após dia, ano após ano, vivido pelas sociedades agrárias, como o Tibete. E o tempo linear, que marcha, move em direção ao futuro, dominante nas sociedades industriais e que expressa essa ideia de modernidade, progresso. O que estamos percebendo em Nova York - ou no Rio - é uma terceira e relativamente nova organização do tempo, que ganha terreno no que eu chamo de modernidade líquida: uma forma de vivenciar a passagem do tempo que não é nem cíclica e nem linear, um tempo sem seta, sem direção, dissipado numa infinidade de momentos, cada um deles episódico, fechado e curto, apenas frouxamente conectado com o momento anterior ou o seguinte, numa sucessão caótica. As oportunidades são imprevisíveis e incontroláveis. Então a vigilância sem trégua parece imprescindível. Esse tempo da modernidade líquida gera ansiedade e a sensação de ter perdido algo. Não importa o quanto tentamos, nunca estaremos em dia com o que aparentemente nos é oferecido. Vivemos um tempo em que estamos constantemente correndo atrás. O que ninguém sabe é correndo atrás de quê.